O consultor Eduardo Ferraz diz que encontrar emprego e profissão compatíveis com a personalidade depende de autoconhecimento

A pessoa errada no lugar errado. Sempre foi a sensação do consultor Eduardo Ferraz sobre sua vida profissional. Formado em engenharia agrônoma, optou pela área não por se identificar. Mas porque parecia um setor razoável para conseguir uma colocação no mercado. Aos 22 anos, foi contratado por uma multinacional. Sua maneira de se relacionar no ambiente de trabalho, no entanto, era criticada.

“Sou extremamente sincero e duro nas minhas opiniões. Era tachado de antissocial”, afirma Ferraz. “Me diziam que eu deveria ser mais bonzinho.” A pergunta que não saía da cabeça dele era: “Será que não existe espaço pra mim neste mundo?” O consultor não só descobriu seu lugar. Hoje, especialista em gestão de pessoas, ele também ajuda outros profissionais a encontrar funções e carreiras compatíveis com a personalidade de cada um.
Em agosto, Ferraz lançou o livro Seja a pessoa certa no lugar certo (Editora Gente). Na obra, ele ensina, por exemplo, como conhecer o próprio perfil comportamental e o que fazer para corrigir pontos limitantes. Em entrevista a ÉPOCA, diz que as pessoas erram na escolha profissional porque não se conhecem.

ÉPOCA – Ser a pessoa errada no lugar errado é algo recorrente nas empresas brasileiras?
Eduardo Ferraz – Sim. E no mundo. Pesquisas globais indicam que oito em cada dez pessoas estão insatisfeitas no trabalho. Outros estudos mostram que cerca de dois terços dos brasileiros gostariam de mudar de emprego ou de área. Também tenho essa percepção como consultor. É tudo resultado de escolhas equivocadas.

ÉPOCA – E por que erramos a opção profissional?
Ferraz – As pessoas não se conhecem. Não é papo de autoajuda. É uma conclusão a qual cheguei depois de me observar. Fiz engenharia agrônoma e detestava. Mas, como engenheiro, não ficaria sem trabalho. Decidi pelo que teria campo. Comecei a analisar o perfil das pessoas e percebi que ninguém sabia quais eram seus pontos fortes e fracos. Em que eram bons ou ruins.

ÉPOCA – Em que momento compreendeu que o autoconhecimento era essencial e pouco comum?
Ferraz – Sempre fui a pessoa errada no lugar errado. Sou extremamente sincero e duro nas minhas opiniões. Era tachado de antissocial. Sou uma pessoa dominante e me diziam que eu deveria ser bonzinho. Eu me perguntava: “Será que não existe espaço pra mim neste mundo?” E tinha. Se até um sujeito com personalidade extrema como eu conseguiu, quem está mais próximo da normalidade terá adaptação ainda mais fácil.

ÉPOCA – O senhor diria que organizações com altas taxas de rotatividade e demissões são aquelas que contratam mal?
Ferraz – Sem dúvida. Porque quem contrata também está infeliz e insatisfeito. Não se conhece. Quem seleciona não sabe o quem tem de bom e fica sem aprender a identificar de verdade os pontos fortes dos candidatos. Tanto em pequenas quanto em grandes empresas.
No livro, Ferraz mostra como corrigir as limitações que impedem o reconhecimento dos pontos fortes e fracos do profissional (Foto: Divulgação)
No livro, Ferraz mostra como corrigir as limitações que impedem o reconhecimento dos pontos fortes e fracos do profissional (Foto: Divulgação)

ÉPOCA – Quais são os prejuízos da má contratação tanto para a empresa quanto para o profissional?
Ferraz – É financeiramente ruim para a empresa, que gasta mais com demissões, contratações e treinamento. É como uma hemorragia que nunca para: cada um que sai é mais sangue perdido. Já o profissional fica com o currículo queimado no mercado ao pular de galho em galho e parecer inconstante.

ÉPOCA – E como contratar bem?
Ferraz – Primeiro, é necessário analisar se os históricos profissional e pessoal do candidato batem com os valores e condutas da corporação. É indispensável compreender o que motiva a pessoa. Dinheiro? Status? Segurança? E se o cargo está alinhado com o real desejo dela. O objetivo do profissional deve ficar claro para ambas as partes, evitando enganos.

ÉPOCA – No caso do profissional, como se conhecer para encontrar a direção correta?
Ferraz – Prestando atenção no que mais o motiva e qual sua personalidade. A ajuda de um especialista facilita a descoberta da direção. Ninguém tem que deixar de ser quem é. Precisa ir atrás e pesquisar as empresas e atividades nos quais seus talentos se encaixam.

ÉPOCA – Não é comum que, desejando muito determinada colocação ou salário, o profissional demonstre estar apto à função quando na verdade não está?
Ferraz – Não vale o desafio. É como mentir a fluência no inglês. Vai dar errado. Nada pior que treinar para uma entrevista, criar um personagem e, na hora de executar o trabalho, não entregar o que prometeu. É burrice vender um peixe que não tem. Ambição é algo bom. Mas desde que a pessoa mostre que ainda precisa aprender.

ÉPOCA – Poderia citar um erro recorrente dos candidatos nas entrevistas?
Ferraz – Quando o recrutador pergunta qual defeito próprio a pessoa citaria e ela diz que se dedica demais à empresa. É ridículo. É receita pronta do que pode impressionar. Outro dia, recebi uma moça que, de cara, me disse ser tímida e que detestava trabalhar em grupo. Me perguntou se existia lugar pra ela. E encontrei uma colocação que se encaixava em seu perfil. Nem todo mundo precisa liderar. Existem boas funções para exércitos de um homem só.

ÉPOCA – Mas a ideia de vencer profissionalmente não está ligada ao cargo de liderança?
Ferraz – Isso é uma bobagem repetida há anos. Não é. Estudos mostram que no máximo 10% da população têm perfil de líder. É a posição que oferece prestígio e alto salário, mas tem um preço alto também. Não há nada errado em desejar, por exemplo, apenas estabilidade e nem querer mandar em ninguém.

ÉPOCA – Quanto mais jovem mais fácil encontrar o lugar certo? Ou a maturidade ajuda a identificar o que é melhor pra nós?
Ferraz – Quanto mais tarde mais difícil mudar. Recebo muita gente na fase dos 40 anos que está no limite, mas tem família, contas para honrar. Para o jovem a pressão é menor. Ainda sem filhos tem mais tempo para si. Muitos contam com a retaguarda da casa dos pais. Mas também não adianta ficar dos 20 aos 30 anos vivendo de subemprego. É torrar um bônus e chegar lá na frente tecnicamente ruim.

ÉPOCA – Não é importante passar por diferentes experiências, mesmo que algumas sejam erradas?
Ferraz – Errar é natural. Mas errar menos poupa sofrimento. Com autoconhecimento o direcionamento é melhor. As pessoas trocam um curso de arquitetura por medicina. É diferença gritante demais.

http://epoca.globo.com/vida/vida-util/carreira/noticia/2013/09/acerte-o-rumo-da-bcarreirab.html

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